Nem a vi partir, sentado no meu canto fumando meu cigarro, preferi evitar encarar sua saída. Não queria ver seu rosto, o batom manchado, ver seu vestido amarrotado, como se não importasse o que tivéssemos feito para melhorar a noite, continuasse arrependida.

            Nos encontramos no mesmo bar do passado, um lugar um pouco sujo e de mal gosto, mas com nostalgia a dar e vender. Sentamos na mesma mesa de quando ainda éramos muitos. Ela como sempre bem vestida demais pro lugar, eu como sempre conseguindo me vestir pior do que qualquer adolescente sujo e sem grana que quisesse aproveitar a cerveja barata e a musica antiga sempre melhor que qualquer coisa feita hoje em dia.

            Não sabíamos direito o que falar, os anos tinham conseguido tirar da gente os assuntos, nos ocupávamos demais com as contas a pagar no fim do mês, ou com problemas corriqueiros de trabalhos que não havíamos propriamente “escolhido”.

            Falamos do passado, da época que o Carlos, ou o Felipe ainda estavam com a gente, um pouco do presente, de como a Samantha estava feliz casada com o Douglas, aquele meu primo magrelo que tinha saído com a gente algumas vezes antes de começarem a namorar, de como a Marcia parecia bem depois de seus dois filhos. Tocamos no assunto futuro, bem de leve, eu ainda falava de largar meu emprego por um tempo e fazer meu tão sonhado mochilão, seis meses na américa latina eu dizia, mesmo sabendo que eu não tinha nem idade, nem pique para fazer o que eu falava.

            Foi então que ela me disse, sobre casar, sobre ter conhecido um cara, sobre como ele era legal, divorciado e mesmo assim bem próximo dos seus filhos do primeiro casamento. Sobre como os garotos a chamavam de tia, como a menina era bonita, as fotos comprovavam, eu me calava apenas sorrindo.

            Tentava segurar a vontade de fumar, mas com tudo aquilo a ansiedade ascendeu, pedi licença e fui fumar, ela odiava quando eu fazia isso, eu sempre falei para mim mesmo que esse era o motivo para nunca termos ficado juntos, não era.

Eu sabia que a gente não ficar junto tinha muito mais a ver com o porque estávamos juntos ali, ainda os únicos vivos e com disposição para sair num pé sujo aquelas horas da noite: Sou o mesmo velho covarde com medo de assumir os meus riscos.

Por esse motivo eu não havia conseguido engrenar em meu sonho, fiquei só com a boa vaga e o bom salário de um concurso, a mesma razão que eu não tinha casado, meus namoros não duravam mais que meses, eu fugia de tudo e de todos e como sempre quando tinha problemas eu me isolava, não deixava que me ajudassem.

O cigarro queimava, cinzas caiam no meu velho tênis, sabia que já tinha que ter comprado um novo faz tempo, mas me recusava a pagar os caríssimos preços do mercado de consumo, tentava resistir até o ultimo a cair nos devaneios consumistas, mesmo sabendo que isso era estranho pra um velho.

Ela chegou por trás, uma mistura de cheiro de um bom e doce perfume com um bom hálito de whisky, sempre gostei dela por isso, ela gostava mais de bebidas fortes do qualquer pessoa que eu conhecia, até mesmo eu. Xingou baixinho pelo cheiro de cigarro, ela sempre ficava assim quando estava bêbada, embora dessa vez eu sabia, ela não estava bêbada.

Disse algo, eu não entendi, virei pra ela saindo de seu abraço e puxando outro trago, fazendo uma pergunta desonesta, embora eu não tivesse a intenção.

— O que?

— Eu te amo caralho, não deu pra entender?

— Mas…

Ela riu, era a minha cara agir daquele jeito. Era clichê que nossa história terminasse assim. O normal, seria claro a gente se beijar, eu pedir para que a gente ficasse junto, que eu a impedisse de se casar, que a gente ficasse junto e se casasse. Mas para nós isso não iria funcionar, sabíamos de tudo isso há muito tempo, para aumentar o clichê, desde que nós tínhamos visto a primeira vez.

— E agora? O que tinha para dizer já foi dito não é?

Ela fez um rosto de dó, acho que ela esperava alguma reação menos passiva, não sei se o tempo tinha dado a ela alguma esperança, ou se comprovar a realidade apenas a machucava mais.

Desenvolver uma vida nesse meio tempo, ainda mais uma vida cômoda, tinha me dado tempo para pensar muito no “e se” que se apresentava naquela hora. Quando uma coisa acontece fora do seu tempo, tudo que você pode fazer é ignorar e seguir em frente, não adianta viver num momento o que foi feito para outro.

Quando ainda é cedo, se pode mudar tudo, pode-se dar outra chance, se pode errar, se enganar, mentir pra si mesmo, ignorar as dores, respirar um pouco e ir fundo. Mas quando é tarde, tudo que resta é pensar “e se”.

— Uma transa, é tudo que eu preciso.

Eu ri, ela não podia estar falando sério, mas sua cara me traia. Eu queria negar, porque sabia que depois daquilo seria apenas eu naquele bar, seria apenas eu me encontrando comigo mesmo pensando nas coisas que poderiam ser diferentes, nos amigos que poderiam ainda estar aqui se não fossem erros, pensando em como eu poderia agir. Eu não podia.

Ser algo que minha cabeça achava certo ao invés de ser eu não fazia parte do meu estilo, fiz que sim. Fomos para fora, chamamos um táxi, ela sempre me xingava quando eu ia com meu carro beber, eu nunca fui capaz de preocupa-la de verdade. Ela escolheu a minha casa, ou fui eu que escolhi, naquela hora o álcool cerrava tanto meu discernimento que não me lembro ao certo.

Fizemos, ela chorou, se negou a acreditar que ia ser só aquilo, partiria para uma vida melhor, uma vida que poderia a satisfazer, fugiria para bem longe das promessas vazias que ela sabia ser mentira. Eu era só aquilo, apenas um amontoado de lembranças para serem esquecidas, apenas um cara parado no tempo com meus problemas e traumas que não estava disposto a mudar de forma alguma.

Ela precisava recomeçar, esteve muito tempo parada no mesmo ponto apenas para esperar que eu estivesse pronto até perceber que eu nunca iria avançar. Existem pessoas que congelam em algum momento da vida e ficam ali para sempre, eu era uma destas, fechado para sempre no momento que o meu carro tinha saído pela ultima vez daquele bar e eu tinha visto todos juntos.

Parado no tempo, sentindo sempre os mesmos gostos, com medo de perder as lembranças, sabendo que nunca seria capaz de avançar, sabendo que minha época tinha sido outra e que estava ficando velho sem verdadeiramente jamais amadurecer.

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