Ninfa e Sátiro (1860), de Alexandre Cabanel
E se, no meio da confusão, no meio do som alto de conversas, copos e copos sendo entornados, corpos e corpos se tocando, pessoas e pessoas agitadas. Se, em meio a tudo isso, nossos corpos fossem transformados?

            Transformados? Que besteira. Mas e se, no meio de tudo isso, nossas verdadeiras identidades fossem reveladas? Eu um sátiro, um daqueles seres de mito, velhos homem-bodes rabugentos, cuja única emoção que podem sentir é tocar sua flauta em louca perseguição a uma musa, sem saber – ou sabendo, quem sabe – que nunca poderá alcançá-la.

            Você, é claro, uma musa, com sua beleza estonteante roubando da natureza tudo que ela pode lhe dar, roubando do seu redor todo brilho e, não só para a minha surpresa como para a de todos, brilhando como se fosse uma estrela apaixonada. Me desculpe os exageros, você nem irá entender nada que eu escrevo quando ler, mas não custa ao escritor tentar cativar ao mundo com seu agradecimento a uma musa.

            Imagine que eu corresse atrás de você, bobo, tocando minha flauta, achando sinceramente que um dia teríamos nossa chance, e você, sem perceber, apenas caminhando velozmente pela natureza, seguindo seu elemento – seja ele terra, ar, água ou fogo – simplesmente me puxando para dentro de você.

            Mas por que não sonhar mais longe? Deixa eu sonhar esta noite que eu fui um sátiro e você foi minha musa e que desafiamos o céu, que deitamos na relva, que nos amassamos um contra o outra, que eu senti sua carne sobre a minha e você me fez feliz – coisa rara, você não sabe, mas um dia perceberá. E que, por um instante, você agisse para comigo não como para com um sátiro, me torne um contigo e me dê um pouco de tudo aquilo que te faz especial, deixa que troquemos tudo que for necessário e depois vejamos o resultado. Esqueçamos toda e qualquer convenção já antes definida, ou que seria definida em um futuro próximo, simplesmente dê amor para mim.

            Não sou nem um pouco sátiro, talvez isso me torne ainda pior, pois no fundo sou um imenso mentiroso, usando um mito belíssimo apenas para dizer algumas palavras bonitas. Entretanto, as musas existem, você colocou essa descrença minha em musas em cheque e agora estou aqui, quero simplesmente te sequestrar, mas não tenho força nem atributos, sou só eu – quem sabe um bode, quem sabe um mentiroso, sou apenas alguém querendo se entregar.

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