E de repente tudo parou a nossa volta, toquei levemente sua orelha enquanto descia sua mão por sua pele suave, toquei as maças de seu rosto com as pontas dos dedos e desci para sua nuca, aproximei sua boca da minha e quando vi de repente, não a beijei, deixei que se afastasse enquanto eu caia num longo abismo de e se, e se eu tivesse sido mais corajoso, e se eu tivesse avançado mais uns centímetros, e se eu tivesse entrado em frenesi e tomado aquela boca para mim, eu teria a deixado sem pensar duas vezes, eu teria dito a ela que a amava, ou eu simplesmente teria ido embora como sempre fiz?

Nem mesmo num sonho eu poderia ter a coragem dos grandes galãs de novela ou de filmes que tanto admirava no sonho ela estava ali, e eu também, parada prestes a se entregar ao meu amor, na realidade, ela nem sabia que este amor existia, chorava pelos cantos por vagabundos e eu numa imensa ilusão esperava que ela simplesmente percebesse que eu a amava, tímida, triste, feia, gorda, puta, qualquer dos adjetivos negativos ligados a ela, que ela ou as pessoas ao redor dela cunhavam para ela, eu amava cada um deles, afinal não é amor este sentimento de sem se importar com o que a pessoa é ou a pessoa vive, defeitos ou qualidades, quer se o bem da pessoa ao seu redor quer que ela esteja perto em sorrisos?

Foi um ocaso, mas um acaso tão grande que nos encontrássemos naquele por do sol, minha família viajava onze horas até chegar à praia, saiamos bem cedo, e era uma grande decepção para mim e meus familiares quando não víamos o som se esconder dentro do mar em nosso primeiro dia das férias de verão, nós não éramos muito ricos, mas fazíamos mundos e fundo para alugar uma “kitnet” na rua de traz da praia, nosso luxo de verão. Mas o por do sol foi ficando no esquecimento, meus avôs me abandonaram por conta que ele lembrava demais minha mãe, minha irmã me abandonou porque casou e teve seus filhos, no fim fiquei sozinho na praia observando o sol fugir de mim e abandonar o primeiro dia das minhas tão queridas férias, até aquele dia.

Pude ver ao longe ela chegar, sorriso meigo, baixa estatura, eu estava na praia e diferente de mim correu direto do mar se entregou as águas, sem roupa de banho nem nada, parecia alguém que acabava de conhecer o mar, fiquei olhando de longe ela pular as ondas, o negror da note chegava e ela ainda continuava ali, pude vê-la sentir frio finalmente e sair da água do mar, se afastar e sentar do lado oposto na praia, a noite estava negra, mas mais tarde eu descobriria que seu sorriso era branquinho seu rosto era fino com um nariz um tanto que aquilino e seus olhos eram negros com uma estranha e bonita olheira, seus pés vistos de perto traziam uma renda com algumas flores, a mesmas estampas em suas mãos, porém com uma renda um pouco mais detalhada como se fosse uma rede de pesca, era moleca e a primeira vista pareceu ter quatorze anos, uma leveza e suavidade que mais tarde eu saberia eram preenchidas por uma personalidade leonina de dezesseis anos, e descobriria que de nada valeria meus um e setenta e sete, que aquela pequena garota de um metro e cinquenta iriam me pegar de jeito e fazer de gato e sapato se quisesse, mas ela não quis.

Era óbvio depois da surpresa em meu momento mágico que eu iria buscar vê-la na praia no outro dia, mas não a encontrei, e acredite, ela era realmente vazia, voltei para ver o por do sol, e enquanto enxergava bem de longe os barcos de pesca voltando, alguém tocou no meu ombro enquanto se apoiava em mim para sentar do meu lado, com uma voz suave e doce ela me perguntou:

– Então é assim você vem todo dia olhar o por do sol?

– Sim, e minha irmã sai com a filha dela e o marido pegar conchinhas, cada um de nós mantém a tradição que mais relembra a nossa mãe.

Ela parou um pouco, como que para respirar ou admirar o por do sol:

– E para que relembrar? Se você nem entra no mar?

Parecia que ela estava me vigiando o dia todo, ou como ela saberia que eu não havia entrado no mar o dia inteiro, não tinha nada contra mergulhos, até me dava muito bem no mar meio que minha segunda casa, pegar jacarezinhos, pular as ondas, me jogar nelas como que para quebrá-las era tudo tão divertido, mas isso foi antes, antes das férias, antes de tudo, mesmo assim ela me levou para o mar, e não consegui deixar de escapar um sorriso ou dois, até que perguntei:

– Qual seu nome?

– Eduarda… e o seu?

– O meu é Marcelo.

Foi assim que a gente se encontrou, os dias passaram nos aproximamos e o ultimo dia se aproximava também, não queria em pensar em deixar a praia ou deixar, ela a primeira semana tinha se passado e foi no primeiro dia dessa semana que eu sonhei com isto, eu acordei suado no quarto, eu não tinha medo de relacionamentos, mas também não queria um relacionamento de verão, não agora, eu já havia partido a um ano e deixado para trás boa parte da minha vida para tentar a sorte em São Paulo, perdera minha namorada pela minha falta de fé na distância. Então um amor de verão literalmente não subiria a serra, mesmo assim eu gostava dela, das coisas que ela me falava e fazia, e ainda tinha outra coisa eu era muito mais velho que ela, para algum seis anos não significaria nada, mas para mim era tudo.

Peguei meu violão e fui para a praia, fazia alguns dias que eu tinha tocado a primeira vez para ela, ela me levou numa pedra onde a água do mar batia e fazia barulho, mas tão baixo que não atrapalharia o som do violão, a pedra não era muito alta, e eu teria sombra e tranqüilidade para poder tocar para ela, toquei uma música, uns versos simples de uma banda de rock fajuta da minha época, “E acaba sempre tudo igual, a gente esquece no final e os dias viram só recordação, você no seu mundinho e eu rindo do que aconteceu, foi só mais uma história de verão”. Não era uma boa musica nem uma obra prima parecia meu subconsciente tentando mandar um recado para ela me fazendo tocar aquela musica.

Foi nesse exato momento que ela me beijou, meu rosto mesmo eu sendo bem mais velho coraram como os dela, ela meio que num sorriso justificando seu beijo, a minha falta de atitude fez ela tomar a dela, e eu a peguei novamente e a beijei enquanto agora acariciava seu rosto de uma forma real, não importava mais se esse amor de praia não subisse a serra eu queria vivê-lo ali a beira a mar mesmo, a partir daquele momento eu deixei rolar, deixei os entraves que tinham me tomado rolar. Foi quando eu percebi que o verão é feito para viver histórias inesquecíveis e não histórias eternas, coisas para servir como aprendizado e esquentar seu coração quando tiver triste no inverno. E que por incrível que pareça amores de verão nunca morrem, são os que mais marcam.

 

 

 

OBS: Musica citada no texto

 

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