Caro Amor,

Meu velho amigo. Mal te vi partindo já lhe sinto a falta. Parecem semanas sem falha sem te ver, e não faz nem uma. Há algo de inseguro em mim com tua partida, mas é daquelas coisas que o tempo nos compensa. Não sejamos imaturos: Nós dois sabemos que não foi uma ida definitiva. Logo serás aquele velho conhecido marcado na agenda, a quem se tem preguiça de ligar. E um dia, baterás a porta, e entrarás de volta, como se o tempo distante nunca tivesse sido.

Sinto que lhe entendo melhor agora. Não há porque lhe idolatrar. Bate a pena daqueles que lhe consideram algo divino, puro, que cai do céu com a chuva. És mais, é melhor que puro. És como o aço, temperado, que resistiu em seu calor ao frio da água. És moldado, construído, com esforço e parcimônia. Tudo para que fique limpo, perfeito, resistente.

Talvez por isso tua despedida me doa tanto. Como lhe lapidei na forma de amigo, vê-lo sair pela porta é o desmoronar de um castelo. Mas não tenha pena de mim, que sou só humano, e por isso não desejo o eterno, pois eterno não sou. Espero que volte, não me falhe nisso, mas não tenha pressa. Teus caprichos são teu charme.

Sinto as pontadas do desespero, mas não cairei nele. Tuas palavras: “Não fique assim, que o que é dos bons tarda, mas vêm.” E eu tenho sido bom, o melhor que posso ser. Tão bom quanto a natureza permite aos homens alcançar.

Logo será verão, e eu vou sentir mais tua falta,  esse mais que vêm do menos. Mas é nesse espaço vazio que deixaste comigo que vou construir a fundação para o teu futuro retorno. E então haverá um castelo novo, talvez mais belo, com certeza mais forte. E saberei, ao notar teu sorriso, que compensou o esforço e a labuta.

Me tomo por crente ao ver que aceito tais coisas sem questionamentos. Mas é a fé no que é bom que nos impede de nos tornarmos o mal, deixando de te merecer. E todos merecemos, em todas as tuas formas. Seja na ternura do suspiro dos amantes, seja no calor do abraço dos que chegam, seja na carta escrita para os que foram. Estás lá. Talvez sejas superestimado. Talvez sejas vilipendiado. Mas uma coisa é certa: Não és ilusão.

E aí daqueles que te negam. Nunca alcançam a cumplicidade com a vida, e ficam largados no vazio que cresce neles. Não tenhamos dó, pois todos possuem jeito. Só é preciso o aceitar, velho amigo, por mais dogmático que pareças. Não há necessidade de se ter preguiça ou medo. Preguiça, em si, é medo. Temor do que virá com a mudança.

Então não tenha vergonha de chegar mudado, com outro rosto, com outra voz, com outros trejeitos. Estou preparado para isso, embora talvez eu demore a te reconhecer. Façamos disso um jogo! Se esconda onde bem lhe entender, e eu me esforço daqui para lhe ver. Será divertido como as tardes de verão. E quando menos notar, estarei de frente com você.

Prometa-me apenas voltar. Vou lembrar de ti eternamente, nos escritos de Vinícius e nas músicas de Chico. Esses me ensinaram que você cumpre suas promessas. Que é infinito em sua chama. Que a vida roda, viva, e lhe traz dos infinitos. Espero um dia que você conte, a outros amigos, sobre como eu também falei tão bem de você, se eu merecer.

Enquanto isso, vamos tomar um bom vinho, eu daqui e você daí, ouvindo uma boa música. Vamos nos manter sãos, para que nenhum de nós se vá em definitivo antes do reencontro. E vamos lembrar saudosos um do outro.

Enquanto puder, seu

Poeta.

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