Eu a tranquei no quarto, sabia que seria o melhor para ela, por mais que meus sentimentos diziam que eu deveria libertá-la eu simplesmente respirei fundo e pensei mais nela do que em mim. Ela se debatia contra a porta enquanto gritava, enquanto ao mesmo tempo chorava, nervosa, em meio a uma crise, as velhas crises, eu as conhecia tão bem quanto conhecia aquela casa, a porta estava trancada, no quarto já não havia mais nada que a machucasse, mesmo assim percebia suas batidas incessantes na porta, eu tinha medo, um medo estranho, medo dos sentimentos dela e por isso não caia de cabeça, tinha medo de a segurar, dizer tudo que realmente passava por minha cabeça, no fundo eu me dizia sentimental e cheio de coragem, mas tudo que eu conseguia fazer era fechar a porta, era a mesma coisa toda a vez.

Sai na rua acendi um cigarro, ela odiava o cheiro de cigarro, mas ele me ajudava a pensar, eu precisava disso, pensar, viajei fui pro passado, para quando eu a conheci, lembrei dos dias em que jogava minha cabeça em sua perna, nos dias em que simplesmente conversavamos eu olhava para ela e admirava eu a conhecia, muito mais do que a conheço hoje, meu Deus no que me transformei, o cigarro esta na metade mesmo assim eu o apago, volto para dentro bato na porta, ela está chorando, não por mim, mas por ela, eu abro a porta ela esta num canto, ela abraça minhas pernas e de um jeito só dela pergunta:

    • Por quê?

Não sei responder eu sento no chão e choro, eu mudei não sou mais o mesmo, apaguei nela os brilhos de outros tempos, que pai eu sou, um pai que não consegue conhecer a própria filha, cujo a esposa olha e simplesmente duvida que exista um coração, eu não sei o que fazer estou perdido, tento todas as formulas da TV e da Internet, e não encontro nenhuma maneira de realmente acertar.

Faz dois meses que ela começou o tratamento com a Psicologa, só tenho ela, e ela só me tem, mas eu tenho trabalho, contas e outros afazares da casa e da minha vida social para cuidar, não posso ir conversar com a psicologa, me pergunto que pai sou eu, repito exatamente os mesmos erros do meu pai, eu tento achar respostas para as brigas para cada sentimento que não se resolve dentro de casa, e tudo recai sobre mim, o mundo realmente caiu nas minhas costas através da minha filha? Ela não era minha alegria? Me pergunto sinceramente para onde foi meu velho eu, e não encontro resposta, quero de volta aqueles momentos de segurar ela no colo, acariciala sabendo que eu a protegeria e que nada no mundo a faltaria, mas justamente eu, sou o vilão dela.

Queria ter mais respostas mais fórmulas infalivéis, mas eu não sei ler seus olhos, ela levanta, eu sei que ela vai para rua, correr para casa de algum amigo, conversar sobre como sou horrivel, eu nunca bati nela nem nada assim, será que se eu tivesse tido coragem de bater as coisas seriam diferentes? Minha princesinha é forte, mas eu não sei enxergá-la assim ela é meu mundo, mas no meu mundo não sobra tempo para ela, a melhor escola onde ela não quer estudar, eu dei, as melhores roupas que ela não quer usar, eu dei, os melhores cursos que ela odeia fazer, eu a coloquei em tudo que ela merecia ter, mas não consigo a ver valorizando nada disso, eu sou um péssimo pai, ela não tem um namorado, ou se tem eu não sei, sinto que sou um nada na vida dela.

Mas o que devo fazer? Não tive pai, não sei o que é dar carinho e amor, fui aprendendo que os pais tem deveres materiais, e os filhos tem papéis sentimentais, ou seria o contrário, vejo meus amigos contando os feitos de suas filhas, ou os problemas delas, e eu fico quieto, mudo o assunto para Futebol ou ainda para o carro novo que o político X comprou, sou ausente, e admito, e tudo que consigo fazer quando ela diz que não me ama é tranca-la no quarto, ela já tem dezesseis, era para nessa idade ela ser a minha Lorena, o meu anjo e não é exatamente o contrário. Eu desisto de ser pai, vou sair de casa, minha esposa nem me ama, ela me olha sempre com aquele olhar vago de quem falta em casa, mas eu tenho minha vida, eu lutei muito para alcançar minha profissão, minhas horas vagas são para mim, afinal porque eu casei? Sendo bem sincero essa nunca foi minha vocação, eu demorei anos para namorar, fui inventar isso.

Minha esposa me abraça, eu estou mesmo chorando? Será que sou tão fraco a ponto de não aceitar um eu não te amo, tento pensar que é só adolescência, meus pensamentos ruins vão se esvaindo, eu saio do quarto minha filha me espera na sala, ela enxuga as lágrimas e ainda chorando fala:

    • Pai, eu estou perdida.

Se ela está perdida eu estou ilhado, me perdi, e quando me perdi?

Anúncios