Saindo completamente do lugar comum, não vou falar hoje no Cidadão Marx de um filme. Vou falar de um anime.

durarara

Colegiais, cientistas e garçons super fortes.

Mas calma. Não corra agora. Posso apostar com você que não gosta de animes que Durarara não é um anime como qualquer outro que você já viu. E se você nunca viu um desenho animado japonês, talvez essa seja a porta de entrada perfeita. Dobra a página comigo.

Antes de continuarmos propriamente, tenho que dizer, também, que Durarara é, ainda, um produto cultural japonês. Como tal, tem elementos e formas de se contar a história tipicamente japoneses, que podem parecer estranhos aos olhos de nós, ocidentais. Mas vou explicá-los também.

 

– Uma cidade grande como outra qualquer.

A história de DRRR! (uma outra forma de escrever a mesma coisa) se passa em Ikebukuro, um distrito comercial com muitas opções de entretenimento da cidade de Tóquio. Somos guiados por Mikado Ryuugamine, um garoto do interior do Japão que decide abandonar a solidão do campo e ir fazer o colegial na cidade grande, junto com seu grande (e até o começo da história, único) amigo, Kida Masaomi.

Mikado então se depara com um universo de completo caos, como elementos fantásticos de sobra. Exemplos? Temos um afro-descendente nascido na Rússia, de nome Saimon, que trabalha vendendo um sushi. Achou pouco? Tem um garçom super-forte, Shizuo, que é, inexplicavelmente super-forte. Pouco ainda? Ok, se prepara. Tem um motoqueiro (na verdade, motoqueira) supostamente sem cabeça, sempre trajando negro e com uma moto que relincha como um cavalo. Eu avisei.

Mas calma. Tudo tem um motivo, vamos continuar a história.

Já na sua chegada, Mikado é avisado pelo seu amigo Kida sobre os riscos do distrito. Entre eles, o garçom Shizuo e a lenda urbana do Motoqueiro Negro. Além disso, ele é avisado para se manter longe das Gangues Coloridos (os Cachecóis Amarelos e os Quadrados Azuis), e de uma gangue recém surgida, os Dollars. Por fim, é avisado para se manter longe de Izaya, supostamente o homem mais perigoso do distrito.

A partir daí, a história é desenvolvida ao redor de uma PÁ de  personagens. Vamos ficando mais conhecedores da Motoqueira Negra, por exemplo. Descobrimos que ela é uma Dullahan, um tipo irlandês de fada que roda a noite em um cavalo sem cabeça. A cabeça das próprias Dullahans é separada do corpo, mas elas as mantém próximas. Acontece que essa Dullahan, chamada Celty, perdeu sua cabeça anos atrás, e seguiu até o Japão a procura daquilo que faltava nela.

Mikado passa a estudar e fazer alguns amigos. Ele, aos poucos, começa a se sentir parte de algo, e inclusive começa a lutar para proteger seus amigos. Kida é muito pouco explorado no primeiro arco, mas já demonstra que sua falta aparente de preocupação na verdade serve pra esconder arrependimentos. Temos ainda Sonohara, uma garota que  teme a própria natureza e por conta disso evita fazer amigos.

Aos poucos, vão surgindo as amizades mais improváveis dentro da história, e nós vamos vendo o lado humano de todos os personagens, exceto de Izaya, que serve como uma espécie de Coringa (é o do Batman), um agente do caos que serve para movimentar a história e tirar tudo e todos do lugar comum.

 

– Passando uma lição com a fantasia

A história de Durarara originalmente era uma série de livros. Os três primeiros foram passados para essa série animada. Mas mesmo nos livros, os japoneses adoram elementos fantásticos. Mas, ao contrário do esperado, todos esses elementos servem para representar algo. Do mais óbvio ao mais complicado de entender.

Um exemplo é Celty. Na sua procura por sua cabeça, fica claro que ela está tentando preencher o vazio que há nela. Eventualmente, ela enfrenta uma questão: Trocar sua situação atual, que ela eventualmente aprendeu a amar, por aquilo que preenche esse espaço em branco. Será que sempre vale a pena encontrar aquilo que sentimos que nos falta? Algumas vezes, pode ser mais proveitoso aproveitar aquilo que a vida nos dá em troca.

Outro personagem representativo é Shizuo. Na sua força física, na verdade, está representada sua força emocional. Ele é um sujeito extremamente decidido, temperamental, que ama aquilo que é, e encontra nisso forças para lutar e continuar assim.

E temos Mikado e o mistério dos Dollars. Vou tentar evitar spoilers, mas pouco a pouco descobrimos no personagem-guia (dizer principal seria um exagero) uma força que não conhecíamos. Ele mostra uma inteligência e uma vontade de encontrar em Ikebukuro seu lugar que serve de exemplo para nós, cidadãos urbanos.

O autor das histórias, Ryohgo Narita, é muito bom no que está tentando fazer. Cada um dos personagens representa um sentimento que a cidade grande nos causa, sem em momento algum serem simples alegorias. Cada um deles apresenta, na verdade, todos os elementos da cidade grande, com um deles mais evidenciado pela história e pelos fatos que acontecem.

No fim, Durarara é uma obra que cumpre de maneira perfeita o que se propõe a fazer. Por isso mesmo, a história é caótica e um pouco difícil de acompanhar, com muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo. Mas qual cidade grande consegue ficar parada?

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