Outro fato sobre os sonhos, é que alguns podem ser sonhados de olhos abertos.

“Tem uma cerveja aqui com seu nome e sobrenome. Se quiser sabe onde me encontrar. Beijo”. Pensou duas vezes ainda antes de enviar a mensagem. Se ajeitou na cadeira , suspirou, passou a mão pelos longos cabelos castanhos até que num impulso resolveu apertar o botão do celular. Sozinha ali fitava as mesas e as pessoas ao seu redor. Gostava de fazer de conta que ninguém percebia sua presença e observava os outros bohêmios tentando imaginar o que falavam, como eram,  o que pensavam. Era assim que gostava de esvaziar a cabeça, que ultimamente andava muito turbulenta.

– Vai sua idiota! Deve ter feito papel de a desesperada carente novamente – pensou.

Aprontava-se para pedir a conta quando alguém parou a sua frente. Movimentava-se veludosamente. No alto de sua timidez, um par de olhos melancólicos que ele sabia quais efeitos desencadeavam nela.

Por alguns segundos, talvez pela surpresa , ela o enxergou como se flutuasse.

– Sente-se! – falou indicando uma cadeira em frente a ela. – Achei sua cerveja perdida por aqui e resolvi te avisar. Completou com um sorriso.

– Que bom que você estava por perto pra resgata-la! – quase sussurrou com uma daquelas risadinhas de canto da boca.

– Mas então me conte, quais as novidades? Não foi só pela boa ação com a pobre garrafa que você me chamou aqui foi?

– Você sabe das coisas não é mesmo? – disse tentando fixamente acertar aqueles olhos por trás das lentes de vidro que tanto a fascinavam. – Pois bem, queria que além da cerveja você me acompanhasse numa dose de sinceridades.

– Sinceridades?

– Sim. Sinceridade é uma fruta que anda meio fora de época ultimamente. Mas sei que você tem algumas e não me negaria.- falou enchendo o copo dele.

– Realmente – tomou um gole – pode ser que eu de algumas a você. Pois bem, peça-as e verei o que posso te oferecer. – e ficou alerta esperando as próximas palavras dela com bastante curiosidade.

Entreabriu os lábios como se ensaiando o que falar. Fechou. Olhou o vazio.

– Só estou sentindo falta de que sejam verdadeiros comigo. Estou saturada de me dizerem coisas,fazerem outras. E você sabe bem que eu não mudo. Eu na maioria das vezes acredito.

– Sim.

– Só que, você é diferente. Eu sei que não conversamos muito sobre essas coisas, mas sei que o pouco que fala é sincero. Também nunca me iludiu. Talvez por essa sua sinceridade, mesmo eu sabendo que não receberia de você mais que algumas noites, acabei me deixando envolver mais do que deveria. Mas eu sempre soube disso. E nunca te pedi nada além.

Ele começou a notar alguns filetes prateados nos  olhos dela. Mas preferiu não comentar. Talvez pela primeira vez aqueles olhos frios demostraram um pouco de compaixão.

– Prossiga . Disse ele calmamente num tom que chegava a ser consolador.

– O que você realmente acha de mim? Como pessoa. Quem sou eu? Não me leve a mal. Desculpe se estou parecendo uma perturbarda…

– Calma! – Fez um gesto com a cabeça como quem indica ‘não se preocupe’. – Mas antes que eu diga qualquer coisa… Me responda primeiro. Ele não conseguiu te dar uma resposta satisfatória? Afinal , vocês já tem um tempo juntos.

– Pois bem, – suspirou – Sabe quando você percebe que as palavras são ocas e ensaiadas? Bem por ai.

– Entendo.

Ele a olhava. Apertava os lábios e olhava o chão. Voltava ao rosto dela. Depois de alguns minutos assim , ela percebeu que as palavras estavam trancadas na garganta dele e sali não iriam sair mesmo ele querendo. Não era culpa dele . Talvez dos remédios de tarja preta. Ela não quis força-lo nem constrange-lo mais. Sabia de suas dificuldades.

 

– Desculpa. – disse ela com lágrimas nos olhos e um sorriso no rosto, livrando-o da obrigação de dizer alguma coisa.

 

Como alguém que estava submerso e volta a superficie ele respirou aliviado. Ainda um pouco nervoso, balançando freneticamente uma das pernas e com as mãos geladas, mas aliviado. Sorriu sem graça.

– Vem cá – ele indicou que colocasse a cadeira próxima a dele.

Ela se ajeitou.

Abraçou-a e cuidadosamente aconchegou a cabeça dela no seu ombro. Com uma mão acariciava os cabelos dela, com a outra esvaziava aquela que levava seu nome.

E ficaram assim, ele olhando o nada , e ela encarando o chão. Até que cada um tomou seu rumo, e o que se passou ali ficou no ar da madrugada.

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