Tentar acordar um astro do rock é mais ou menos como tentar ensinar uma Tartaruga Gigante de Galápagos a transar. Você pode gastar o tempo que quiser tentando, mas não surtirá efeitos. E, eventualmente, ele acordará por conta própria.

Mas aquele era o trabalho de Thomas Holmes, e ele tentou, pela oitava vez no dia, acordar Gorgon, o bateirista da banda internacionalmente famosa Gut Explosion. Ele tentava diariamente ser criativo na tarefa como uma maneira de transformar o trabalho em algo menos monótono, mas estava ficando sem criatividade desde que acordara o mesmo Gorgon com uma mistura de gemada de ovo de pato, uma orquestra sinfônica e um Peixe-Palhaço. Desnecessário dizer que Gorgon não só não acordara, como a orquestra se aposentara ao descobrir não conseguir produzir um som mais alto do que o ronco do percursionista. Além disso, ele ainda não tinha certeza de que fim levara o peixe.

Passou então à tarefa seguinte: fazer o baixista dormir. Fix Jam, o dito músico, tinha sido uma tarefa fácil no começo da carreira. Um dardo tranquilizante direto na jugular resolvia o problema de imediato. Mas o tempo e o abuso de drogas o haviam deixado resistente ao dardo, e agora a única coisa efetiva era um cobertorzinho amarelo e uma fita com sua mãe cantando uma bela canção de ninar.

Thomas nunca sonhara em se tornar um roadie. E ele nem era um roadie. Ou pelo menos era o que ele preferia acreditar. Ele dizia que era um Assistente Multipessoal para Ocasiões de Caos. Mas todos os outros roadies olhavam para ele com admiração e pena. Pena pelo fato de ele ter que lidar com o material mais complicado de uma banda, os músicos, enquanto eles só tinham que carregar e descarregar toneladas de equipamentos por aí. Admiração por que ele tinha o melhor salário. Pensando bem, é melhor chamar de inveja mesmo.

Thomas nem sempre fora um roa… Um Assistente Multipessoal para Ocasiões de Caos. Ele já fora um feliz corretor de imóveis, com uma casa comum, um cachorro comum, e um trabalho ainda mais comum. Enfim, um saco. Tudo mudara no dia que seu primo o convidara para arrumar uma casa para o vocalista da Gut Explosion, Neilman.

O vocalista era um sujeito um tanto excêntrico, dado a explosões, tanto de humor quanto estomacais (daí a origem do nome da banda). Suas vontades mudavam do dia para a noite. Thomas resolvera o problema vendendo ao sujeito um barco moderno, que podia tanto mudar seu formato quanto sua localização, e era, em geral, mais interessante que a outra casa de Neilman, com seus milhares de metros quadrados de jardins sem fim. O músico ficara tão impressionado com o trabalho que o convidou para ser o assistente da banda em tempo integral.

Uma vida na estrada, cheia de excitação, hotéis baratos e garotas fazendo qualquer coisa para chegar ao backstage? QUALQUER COISA? Ele topo na hora. Depois da remoção rápida e cirúrgica do assistente anterior (que pareceu mais feliz do que triste com a demissão), ele tomou posse de seu novo trabalho.

A partir daí, os dias eram intermináveis caças a M&Ms da cor errada, exigências de mais toalhas brancas, reclamações sobre a temperatura da água (“Neilman pediu a 25,5 graus celsius, não 24,9!”) e injeções de adrenalina direto no coração de um baixista com overdose. Ele não podia mais reclamar da falta de emoção.

Mas aquele dia era especial. A Gut Explosion fora convidada para ser a ultima banda do grande festival de Babachella daquele ano. Uma honra tão importante para os membros quanto quando eles foram melecados de geléia verde atóxica no Prêmio Escolha dos Adolescentes. Claro que aquilo não ficara muito bem quando a geléia não se mostrou tão atóxica assim, mas fora bom, pois puderam enviar Fix Jam para um rehab e ele ganhou dois rins novos. Ele mal podia esperar pela oportunidade para trocar também o fígado e um dos pulmões do músico.

O dia corria praticamente feliz. Uma banda inimiga, o Finger in My Uh!, havia atrasado apenas uma hora o começo do seu show, o que significava que as duas horas que Neilman planejava fazer a platéia esperar seriam mais que o suficiente, e ele não teria que arrumar mais cinquenta toalhas brancas para o acalmar.

Mas então, tudo começou a degringolar.

Primeiro, Rictor sumiu. Os desaparecimentos do guitarrista eram comuns e esperados, e normalmente eles só precisavam procurar pelo sinal do gps que a gravadora colocara em um dos seus molares para encontrá-lo e levá-lo ao palco. Mas então, um dos seus assistentes veio lhe dizer que encontrara o molar de Rictor ensanguentado ao lado de uma faca de cortar bolo. Aquilo lhe trazia dois problemas.

O primeiro era que ele odiava ter assistentes. Ele próprio já era um assistente, mas a gravadora fazia questão que ele mantivesse pelo menos mais três auxiliares para cada membro da banda. Normalmente a banda contratava qualquer gaiato que soubesse onde descolar qualquer tipo de droga em qualquer tipo de espelunca durante qualquer tipo de evento, o que o deixou com um total de quarenta auxiliares.

O segundo era que o guitarrista era o único que conseguia fazer a banda entrar no palco. Era simples. Thomas jogava Rictor no palco, e ele começava a ser ovacionado. A inveja que o restante da banda sentia dele desde que a revista Roading Bones dissera que ele era o único membro que sabia realmente tocar seu instrumento fazia com que os demais se também se dirigissem para lá.

Em seguida, outro assistente veio lhe informar que Gustav encontrara uma borboleta, mariposa, ou algo assim. Gustav era, oficialmente, o tecladista virtuose da banda. Mas todos sabiam que, na verdade, ele era o Mico de Circo oficial da banda, aquele que bota fogo nos instrumentos e mija na platéia. Fora do palco, sua personalidade era totalmente oposta. Ele era um sujeito zen, que praticava 82 posições de ioga e tai chi antes de entrar em palco, e que perdia dias observando borboletas, mariposas ou coisas assim. Daí o problema.

Ele mandou o assistente pegar a rede e ir tentar capturar a borboleta e levá-la ainda viva até o palco, e então partiu, seguindo o rastro de sangue que saia da faca de bolo e terminava em Rictor. Ao passar pela porta do quarto de Gorgon, viu paramédicos lá dentro. Estranhou o fato dos paramédicos estarem ali, e não no quarto de Fix Jam, e tentou os informar do equívoco. Mas então eles o informaram que o baterista estava sem batimento e sem respiração. Como ele não era paramédico e não entendia nada de primeiros socorros, continuou seguindo o rastro.

Mais a frente, foi informado de que a esposa de Neilman estava chegando. Como se ele já não tivesse problemas em ter que lidar com a namorada, a amante, e a prima com as quais Neilman estava naquele momento trancado no quarto. Mas ficou feliz ao saber que Fix Jam finalmente adormecera.

Chegou então, ao fim do rastro que começava na faca de bolo. Para sua consternação, ele não terminava em Rictor, mas num bolo de mamão. Ou aquele era o ponto de partida do músico, ou ele parara de sangrar ao enfiar dezenas de pedaços de bolo em sua boca absurdamente gigante. Preferiu acreditar na segunda e continuou seguindo o caminho reto por onde o rastro deveria continuar também.

E então notou que estava no palco. Havia milhares de pessoas lá embaixo. Ele olhou para elas. Elas olharam de volta, com mais intensidade. E ele sentiu uma força, inumana, o puxando para eles. Eles o encaravam, o secavam, e ele queria ser parte dele. Era isso, ele finalmente entendia. Deveria pular, se jogar na platéia, se tornar um com eles! Deveria abandonar a carreira horrível em que se metera e se tornar uno com o mundo.

E então uma voz falou no seu fone de ouvido informando que haviam encontrado Rictor. Ele estava trancado no armarinho de esfregões, com 12 toalhas brancas, um balde de M&Ms azuis e a esposa de Neilman. Neilman saíra do quarto ao ficar sabendo disso, e eles já providenciavam para que Gustav entrasse no palco. E Gorgon voltara a respirar depois que os paramédicos tiraram de sua garganta um peixe-palhaço ainda vivo envolto em wasabi.

Ao menos ele encontrara o peixe-palhaço, embora não tivesse certeza de com o wasabi havia entrado na história. Depois de fincar mais uma injeção de adrenalina no peito de um baixista em overdose, conseguiu fazer todos os membros da banda subirem no palco.

Aquele foi o show mais incrível que a humanidade já assistiu.

Anúncios