Ela podia ser mais nova, mas não era como as outras, tinha um sorriso simples em uma boca extremamente composta, cabelos negros, e uma ousadia nata, me dava gosto vê-la e sentir teu cheiro próximo a mim era como paz para a minha alma, não lembrava bem quando tinha sido a primeira vez que havíamos nos encontrado, mas nunca vou esquecer como e porque isto acontecera, agradecia muito a minha ex-namorada, e apesar do pouco entendimento que eu tinha sobre essas coisas sempre senti que as duas eram de certa forma duas variações de uma espécie rara e maravilhosa. Eu tentei de forma inútil chamar sua atenção, enquanto muitos zumbiam a minha volta eu olhava por cima do seu ombro tentando ver se alguém nos observava, eu tinha medo da diferença de idade, mas também tinha medo que ela não gostasse de mim, tinha certeza que eu poderia gostar dela, mas não sabia exatamente por quanto tempo ela prenderia minha atenção.

Não vou mentir que me assustei quando o primeiro verão finalmente chegou ao fim, rapidamente o tempo também levou o outono, finalmente o inverno chegou e ela ainda estava ali, enquanto meu rosto gelava, ela me olhava com uma cara feia enquanto aproximava seu rosto do meu, como que pedindo que eu me excedesse, e me aproximei, e ela se afastou, os gestos do nosso corpo seguiam uma valsa louca, onde com medo de se machucar, o corpo dela se afastava do meu num grito de sua alma com um medo triste de mim. Nunca pude entender seu medo, mas quando ele era colocado para fora, não era nada espetacular, era apenas algo que eu temia assim como ela, algo que queria que chegasse ao fim, foi quando chegou o momento, depois do inverno eu iria embora, e fui.

Passaram dois verões, não diria que foram dois anos normais, quando juntos eu era mais leve, e aqueles verões me envelheceram além da conta, comecei a trabalhar pesadamente e a tomar mais café a cada dia, dormir menos, mas de certa forma também foram anos bons, arranjei outros amores, amores que não duraram nem um quarto de estação cada, coisas que passaram e nunca me preencheram totalmente, deixei que o tempo passasse e aprendi pouco a pouco a ignorar aquilo que parecia não existir, foi achei que havia esquecido, mas ainda estava sozinho, continuava sozinho, e finalmente esqueci.

Foram seis verões depois, eu viajava a trabalho para uma cidade bem mais ao sul do que a que havíamos nos conhecido, Montevidéu era uma cidade linda a seu modo, tinha um cheiro ao seu modo e um frio que entrava na pele, mas de certa forma algo gostoso, vi de longe uma mulher morena, bem diferente daquela menina que eu havia conhecido, pele branca, sorriso negro, passou por mim, esperei alguns minutos e me virei para olhar, ela também olhava para trás, me segurei por alguns instantes, afinal a distância era tão grande, e os anos haviam se passado, não poderia ser a menina que eu havia conhecido agora mulher? Afinal eu o garoto com a barba falhada e o cabelo bagunçado agora estava com uma barba comprida, vestindo social quem poderia imaginar, mas tudo aquilo era a magia das estações, gritei seu nome dessa vez sem sussurrar:

– Brenda.

Ela olhou para trás, e avançou até a mim:

– Júlio?

Não eu não era o Júlio mas ela era a Brenda, a abracei forte coloquei meu rosto contra o dela e sussurrei:

– Não, não sou o Júlio, eu sou alguém que você não deveria esquecer.

Ela corou, respirou um pouco com meu rosto contra o dela, e deu alguns passos para trás, eu segui ao seu lado, cheguei ao meu destino precisava trabalhar, a convidei com um gesto, ela entrou tomei alguns cafés enquanto olhava para o seu rosto, ficamos ali um tempo, quando chegou a um certo horário ela me disse que iria para casa, um pouco corada me entregou um guardanapo enquanto entrava no taxi, naquelas linhas vinha claro, ela poderia ter crescido mas muita coisa não tinha mudado, naquela letra leve e fina ela escreveu seu telefone e endereço e uma frase:

“Eu nunca te esqueci, só não achei que você fosse se lembrar de mim.”

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