Me esforcei essa madrugada inteira tentando escrever algo que não fosse de futebol. Depois gastei o dia inteiro tentando tirar uma história do futebol. Não deu. Pra não deixar vocês sem texto, eu vou falar do que muita gente pode considerar um assunto chato, mas é o único que eu consigo falar no momento: Meu time na final da Libertadores.

Se você não gosta de futebol, nem precisa ler. Se você simplesmente não gosta do Corinthians, peço que leia e tente entender o que é essa emoção que eu estou sentindo. E me perdoem pelo fato de ter gasto tanto tempo pra escrever sobre um assunto que só interessa a mim.

Não é segredo pra ninguém que eu sou Corinthiano. Eu já flertei, quando tinha menos de dez anos de idade, com torcer para outros times (o último deles o Cruzeiro, para o terror do meu pai). Mas não tem jeito, tenho vocação pra sofredor, e acabei abraçando a torcida pelo time que é o mais odiado do país, talvez do planeta.

Não sou um torcedor chato. Não acho que meu time é o melhor do mundo. Mas defendo com unhas e dentes a honra do clube a qualquer um que tente nos colocar um degrau abaixo, ou se elevar dizendo que seu time é melhor. Cansei de discutir na escola com um são-paulino em particular que defendia o seu time com unhas e dentes, por que ele dizia que o Timão só ganhava títulos com ajuda do apito amigo.

Mas o que sempre me doeu foram as “duas verdades”. Haviam (e ainda existem) dois argumentos verdadeiros sobre o Corinthians que me deixavam sem sono. O primeiro é a falta de estádio. Não que é necessário um estádio próprio para ser um grande time. Os clubes todos do rio praticamente dividem o Maracanã, e mesmo em Milão o Inter e o Milan tem de dividir o San Siro. Mas meu time do coração era o único da cidade de São Paulo a não possuir um estádio próprio. O Pacaembu nos deu alegrias, mas era a mesma coisa que morar de aluguel: sempre fica o sonho de casa própria. Recentemente, começamos a construção dessa casa. E ela vai ser, acredite, incrível.

A outra verdade doía ainda mais. Embora eu ache indiscutível o fato de que nós possuímos, sim, um mundial (nos classificamos para ele segundo as regras estabelecidas pela FIFA, como campeões do país sede, algo que ainda hoje ocorre nos campeonatos mundiais de clubes mais modernos), nos faltou sempre um título. Nós vimos os rivais, os não rivais, e até times de pequeno porte, conquistar o prêmio. E nunca tínhamos chegado sequer à final. Eu me recordo muito bem como foi doloroso perder para o Palmeiras nos pênaltis numa semifinal. Lembro como foi horrível, no ápice da era das estrelas, perder pro River Plate. Mas lembro também de algo que meu pai me disse quando eu tinha 17 anos: “O Corinthians, passando pra uma final, ganha.”

Não vou dizer que tenho certeza de uma vitória hoje. Ser corinthiano é, acima de tudo, ter ataques do coração todos os jogos. Não adianta ganhar de 4 a 0. O corinthiano sabe muito bem que vai ser 3 a 2, com o ultimo gol aos 32 minutos do segundo tempo. É sempre assim, com dor, com raça.

E é por isso que, nós, corinthianos, nos achamos diferentes. Não especiais, não melhores. Mas torcer para o Timão é, com toda a certeza, diferente de torcer para qualquer outro time. Tivemos grandes times, tivemos grandes glórias, tivemos grandes tragédias. E, no fundo, nada disso importa. Somos cegos de amor nos momentos errados e vemos a dura realidade em momentos ainda piores. Quem não se lembra da era Dualib, quando acreditávamos piamente que era vantajoso entregar o clube para uma lavagem de dinheiro? Depois vimos o tamanho do nosso erro, e a crise vinda das confusões nos arrastou para o momento mais negro da nossa história: a série B.

Então, vieram eles, os salvadores. Andrés Sanchez e Mano Menezes. Andrés era um ex-feirante que havia conseguido sucesso como empresário e já participava da política do clube na época de Dualib. Mesmo tendo compactuado no começo com a época da MSI, logo foi para a oposição, e saiu limpo da confusão. E Mano era um técnico experiente com a tal da série B. Já havia resgatado o Grêmio, mas nem sonhava com o que significava ir para um time como o Corinthians.

Mas o início da era de glórias veio com o Departamento de Marketing. Logo de primeira, mandaram uma grande campanha: Eu Nunca Vou Te Abandonar. Virou lema da torcida. Era só a constatação de uma verdade. Com a campanha e o apoio da torcida, começamos a retomada, com boas contratações. Enquanto alguns achavam que o meio campo era a enfase, logo o destaque foi para a defesa, como continuaria sendo.

Subimos, mas a Copa do Brasil escapou. Ficou pro ano seguinte, ficou pra ser ganha junto com o Paulista, com um ídolo já atrasado, em fim de carreira: Ronaldo. Ele chegou, e mesmo jogando pouco, fez uma diferença gigante. Primeiro trouxe dinheiro, trouxe marketing. Mostrou pro mundo o que era o Corinthians. E por fim, era um grande craque dos vestiários, sempre incentivando os companheiros. E assim, voltamos pra Libertadores.

Mas foi rápido. Foi terrível. Foi contra o outro grande time popular do país, o Flamengo. Parecia que iríamos começar a ser só mais um time na competição, sem realmente disputar o prêmio. Ficamos em terceiro, no primeiro ano sem títulos desde o começo da retomada.

Mas o ano seguinte parecia ainda pior. Primeiro time rebaixado na pré-Libertadores da história do país. Parecia que iríamos ainda mais fundo no poço. Não fomos. Brilhamos. Ganhamos o Brasileiro. Foi um ano de glórias, só ofuscado pelo Santos, campeão do Paulista e da Libertadores.

E então, esse ano. Começou parecendo complicado. Foi. Um empate sofrido já na primeira partida. Depois, mais empates. E vitórias. E mais vitórias. Quando notamos, eram as quartas, e o adversário era o Vasco, o mesmo do Brasileiro do ano anterior. O Vasco era um bom adversário, mas não foi páreo. Alguns vão chamar de sorte de campeão. Outros vão falar que é simples sorte, sem nada de vitória. Eu chamo de graça divina.

Depois, o Santos. Bi-Campeão do Paulista, tentando fazer o mesmo feito com a Libertadores. Complicado, claro, suado. Talvez as partidas mas difíceis do ano, da década, da história do clube. Mas vencidas. E então, agora, o Boca. Precisamos ganhar para levar o título. Ganhando, seremos campeões invictos. Algo que ninguém faz a décadas.

É complicado explicar o que é torcer pra qualquer time. As vezes, parece que há uma força sobrenatural, empurrando a bola pra fora no momento do gol adversário. E muitas vezes a mesma força devolve o favor para o inimigo. E nós suamos, choramos, gritamos. Mudamos de humor por causa de um gol que deixou de ser feito. Vocês que torcem para outros clubes sabem o que é isso. Parece que sempre ficou faltando só um pouquinho. Se aquele gol tivesse entrado. Se o juiz tivesse apitado aquela falta ou tivesse evitado aquele cartão, o título era nosso. E sempre fica a esperança de um outro ano.

Mas ser corinthiano é ignorar que o mundo vai continuar, ou que já houveram outros jogos. Não somos melhores, não somos maiores. Mas somos, sim, diferentes.

Edit Postumo por @Rueles: Parabéns galera, podem gritar agora Corinthianos. Representaram bem nosso Brasil nessa final de libertadores, agora representem também no mundial Ò.Ó

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