Outro fato sobre os sonhos, é que ás vezes eles podem criar situações mais agradáveis do que se você tivesse passado um mês idealizando aquela situação. Eles sabem antes mesmo de você se dar conta, o que você deseja ou o que você pode vir a desejar antes mesmo de você querer.

A cabeça estava pesada ,porém o clarão ali a fazia perceber que já era hora de levantar. Estava tentando lembrar quando comprou amaciante com aquela fragrância diferente que ela sentia vir dos lençóis. Mas  desistiu logo de tentar resolver o mistério porquê estranhamente , a cada tentativa era como se alguém a girasse no ar e sua cabeça ficava zonza.

Quando finalmente conseguiu descerrar as pálpebras levou ainda alguns segundos para que a sensação de choque e surpresa tomassem conta. Aquele não era seu quarto, por mais bonitas que fossem as camas rústicas e largas. Cheias de almofadas com capas coloridas e feitas do mesmo material que redes de descanso. Aquela casa obviamente também não era a sua. Claramente um casarão antigo , todo branco e com janelas enormes de madeira pintadas de azul. Se levantou e cambaleou para uma porta de correr. Notou então que a porta dava para uma varanda que ficava no primeiro andar. Várias portas ao longo dela, provavelmente de outros quartos. Nas duas extremidades percebiam-se escadas. O telhado era todo feito de telhas de barro vermelho. E a vista dali de cima a fez perceber que aquela também não era a sua cidade. Via dali a parte baixa de uma praia de pescadores com alguns coqueiros sendo acariciados pelo vento e um convidativo mar de águas azuis. Pelo tinir do reflexo do sol na areia branca, julgou ser entre 9 ou 10 da manhã.

– Então você finalmente acordou! – ela logo reconheceu a voz masculina atrás dela. Ainda estupefata por tudo virou-se e o encarou sem saber se ria ou se tinha um acesso de fúria.

Os sentimentos misturaram-se e ela não conseguiu ter uma reação bem definida. Apenas perguntou:

– Como eu vim parar aqui? Como você fez isso? Eu só me lembro de estar debruçada sobre o nosso projeto em casa. Lembro apenas que fui preparar um chá e depois não lembro de mais nada. Como você fez isso?

– Eu tenho os meus meios – soltou essas palavras entre aquele sorriso atrevido que mexia com ela, mas pelos dois trabalharem juntos sempre guardou isso apenas para ela mesma.

Ainda estava meia grogue. Poderia começar a gritar e falar de todas as pendências que ela ainda tinha a resolver em casa, os prazos , a madrugada que teria de passar em claro. Mas no fundo ela queria aquilo. Ela precisava daquele descanso.

– Você é louco! – foi a única coisa que conseguiu dizer.

– Foi a única maneira que eu encontrei de você me dar atenção , precisamos terminar essa papelada você sabe disso.

– Tudo bem então. – e foi se arrastando de volta para a cama. Sentou e começou a revirar sua mochila em busca do seu caderno de anotações. Ele sentou-se ao seu lado,  mas com as duas pernas cruzadas em cima da cama. Não parava um segundo. Ficava tentando irrita-la se aproveitando da situação em que ela estava. Desamarrava-lhe os cabelos, cutucava sua orelha com a caneta e ria-se ao vê-la resmungando e tentando se recompor com dificuldade, por ainda estar com a cabeça pesada.

Como todo homem, ele ainda era um menino. Ela sempre o repreendia , mas no fundo era o que mais gostava nele.

– E então o que você já conseguiu fazer em cima do material que eu lhe enviei? Fez a análise? Ficou bom?

– Calma deixa eu pensar um pouco. Eu achei que tinha anotado aqui mas não estou encontrando. E essa maldita dor de cabeça ainda! Deixe-me tentar lembrar. Espera um pouco eu estou assim por causa de você!  – disse rispidamente.

Recostou-se nas almofadas, colocou as mãos sobre a testa, e fechou os olhos numa tentativa de fazer a cabeça parar de girar e conseguir trabalhar. Sentiu que ele se movimentou sobre a cama. E quase em seguida percebeu que havia uma respiração quente próximo ao rosto. Abriu os olhos e encontrou os dele, castanhos e atrás dos óculos, já bem próximos aos dela. Ela sentiu borboletas no estômago pois sabia o que iria acontecer e sabia também que queria isso. A respiração ficou um pouco mais ofegante. Engoliu saliva em seco. Tudo isso sem deixar de olhar no fundo dos olhos dele.

E aquele dia conseguiu ficar ainda mais azul.

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