Tags

Eles quebraram o portão inferior leste, e ele continuou a atirar flechas. Tinha só quinze anos de vida, mas continuava atirando, sempre. Por sorte fora colocado numa posição próxima do arsenal, e conseguira trazer e colocar próximas tantas aljavas recheadas de flechas que ficaria impossível para ele ficar sem elas.

Um deles escalou a casa a sua direita, mas ele o acertou no estômago antes que pudesse pular contra ele com sua espada, vindo de uma posição alta. Ele viu cada vez mais caídos, acertados por ele. Eles saíam do vão que haviam aberto no portão com seu aríete, só para cair, com uma flecha encrustando o a cabeça ou o abdômen.

Todos os outros homens haviam debandado, mas ele ainda atirava, sem perder a concentração. Ele vivera a vida inteira naquela cidade, e a amava, e não queria ter o peso de ter a abandonado e deixado que seus séculos de existência chegassem ao fim.

Notou então que haviam outras flechas sendo atiradas, juntas das dele, pela sua esquerda e pela direita. Alguém viera ajudar, mas ele não tinha tempo para se virar e olhar quem era. Continuou atirando, o braço já dormente da dor de estender seguidamente o braço esquerdo e de puxar a corda com o direito. Acertou outro dos inimigos com um tiro no olho. Este possuía um capacete com um tipo estranho de decoração. Devia ser algum tipo de capitão.

Ele agradeceu aos deuses por não haver entre os adversários nenhum arqueiro. Sem poder atacar de longe, eles eram alvos fáceis, e continuavam a morrer, um atrás do outro. Acertou mais alguns antes de notar que as flechas que vinham do seu lado direito estavam todas em chamas. Pensou que, quem quer que estivesse ali o ajudando, devia ter se dado ao trabalho de trazer um archote com ele, e só usava flechas preparadas para aquela situação.

Pouco a pouco, ao longo de uma hora, o fluxo dos inimigos diminuiu. Logo, só um ou outro cometia o erro de tentar se aventurar por aquele portão. As defesas do outros portões também devia estar surtindo efeito, caso contrário haveria ali tanto adversários, vindos por tantas direções, que ele jamais seria capaz de acertar todos.

Buscou mais uma aljava ao seu lado, e notou que já não haviam flechas. Nenhuma. Ele atirara todas elas. Mas também não haviam mais inimigos, então ele podia descansar. Virou-se a tempo de ver a brigada de reconstrução chegando para reparar aquele portão, e atrás dela as duas figuras que haviam o ajudado.

Um, que estivera atirando pelo seu lado esquerdo, era um homem, como ele, mas devia possuir já quase três décadas de vida. Possuía uma barba densa, porém curta, e olhos verdes que miravam nele. Trajava uma cota de malha por baixo de um manto negro, com um sol branco bordado, e trazia à cintura uma espada, embora não usasse bainha.

O outro, que atirava as flechas incendiárias, não trajava nenhuma vestimenta no dorso. Não havia nele um pelo sequer, nem mesmo em sua cabeça, reluzente. Em seu rosto, ao redor do olho esquerdo, havia uma tatuagem que deixava aquele lado do rosto com uma feição aquilina. Seu braço direito, que usava para segurar o arco, estava em chamas até a altura do cotovelo. Então ele compreendeu que estivera lutando ao lado de um ser de outra raça.

– Qual seu nome, garoto? – Perguntou o homem.

– Cao. Cao, filho da cidade. – Aquela era a forma de dizer que não conhecia seu pai.

– Fez muito bem em proteger esse portão sozinho por tanto tempo, Cao. – O homem se sentou nos degraus de uma das casas. – A cidade tem muito a lhe agradecer. Eu sou Feo, filho de Teo, e esse é O Arqueiro, um Aazar. – Quando notou que Cao observava o braço em chamas do estrangeiro, Feo o exeplicou. – Os Aazar são filhos do fogo, e o fogo não fere aqueles que por ele são queridos.

O garoto acenou seu entendimento, ainda estupefato por ter lutado ao lado de um ser tão incrível. Em seguida, um cavalo parou ao seu lado, e ele se virou para ver que o próprio governante da cidade, Haosir, estava ao seu lado.

– O que houve aqui?

– Todos os homens debandaram, exceto por um. – Disse Feo, apontando para o garoto que acabara de conhecer. – Ele lutou por cerca de vinte minutos sem qualquer ajuda, com muitas flechas, até que nós pudéssemos chegar até aqui para o ajudar. Não fosse por ele, esse portão teria caído.

O governante olhou, estupefato, para o jovem. Então disse.

– Não o percar de vista. Precisaremos de muitos arqueiros exímios nas noites que virão. – E então, se dirigindo a Cao. – A cidade livre de Daodara lhe deve muito, rapaz. Mas temo que não poderei recompensá-lo até nos vermos livres desse cerco.

– Eu compreendo, lorde Haosir. E não espero nenhum tipo de recompensa.

– Mas a terá. Apenas continue lutando, e logo nos livraremos desses malditos. – E partiu.

Cao sentiu uma mão se colocar em seu ombro. Se virou para ver Feo ali.

– Alguma vez você já bebeu, rapaz? – Cao confirmou. – Então vamos, depois de tantas flechas, todos precisamos de um caneco de cerveja.

Anúncios