Os dois cavalgaram juntos pelo vale, vindos da parte seca depois caminhando sobre a grama. Pouco conversaram até estarem muito próximos do rio. Então o mais velho deles parou, passando a mão na longa barba que ostentava, e disse.

– Só posso levá-lo até aqui.

O mais jovem virou o seu cavalo, encarando assim o outro. O mais velho trajava um robe entre o branco e o dourado. Não trajava jóias, e seus únicos pertences era a espada que carregava presa a cintura e uma bengala amarrada à cela. Usava um chapéu verde com uma fivela. O outro se vestia com mais esmero. Usava um manto vermelho com o bordado de um sol branco por cima da cota de malha, que se estendia com suas mangas longas além das curtas do manto. Também portava uma espada, e não era uma espada qualquer, presa à cintura, possuía diversos itens presos em sua cela, entre eles um arco.

– Por que não?

O velho encarou o rio, com um misto de melancolia e ressentimento no olhar. Tirou o chapéu e tirou de dentro dele um longo cachimbo, erva para este, e duas pedras.

– A segunda vez que morri, espalharam minhas cinzas neste rio. – Ele disse, ajeitando a erva de fumo no cachimbo. – É chamado Gaor Amonrar. Ruína de Gaor. Não posso cruzá-lo. Pelo menos, não no atual estado.

O jovem silenciou por um momento. Virou, voltando a encarar o rio, e aceitou.

– Qual o caminho?

– Siga reto em direção às montanhas. Você se aproximará de três estátuas. Siga na linha reta entre a estátua com o cajado e aquela para qual ela aponta. Dois dias.

O jovem se virou, sem virar o cavalo dessa vez, e sorriu.

– Dois dias.

Então colocou seu cavalo em movimento. Quando o cavalo começava o galope, ele gritou para seu acompanhante.

– Tem meus agradecimentos, Gaor!

O velho produziu uma faísca rapidamente com as duas pequenas pedras, acendendo seu cachimbo. Então respondeu.

– Eu cobrarei, filho de Teo! – Ele disse, dando uma longa tragada, e depois reafirmou, para si mesmo, em voz mais baixa. – Eu cobrarei. – E acrescentou, sem voltar a levantar a voz. – Se você voltar.

O jovem cavaleiro cruzou o rio com facilidade. Naquele ponto, ele era mais raso. Agradeceu a Gaor mais uma vez, mentalmente. O velho com certeza o levara por um caminho que seria mais fácil cruzar à cavalo. Antes do sol se por, já caminhava em direção as montanhas. Acampou quando o céu escureceu, pois dificilmente veria as estátuas na escuridão. Comeu o pouco que ainda tinha, e dormiu.

Antes que estivesse claro ele já voltara a cavalgar. O dia o encontrou a muitos quilômetros do rio, e ele fez seu desjejum ainda cavalgando. Antes do zênite ele as avistou. As estátuas das três bruxas.

Aleha, Greha e Freha. As bruxas do Pandemônio, mães dos Lordes Boreais, mortas pelos Senhores Sinistros. Eram lindas, ele podia notar, apesar da distância. Sempre imaginara que as bruxas eram horrendas, influenciado pelas histórias contadas pela sua ama seca quando era menor. Mas eram três das mais belas mulheres que ele já vira, mesmo sendo feitas de pedra. Agora ele compreendia como elas haviam conquistado o apreço de três dos Eons e se tornado mães de grandes magos.

As histórias contavam que Aleha, a mais velha, matara o pai, um dos Primeiros Reis, que delas abusava, e levara as irmãs, ainda pequenas, fugindo da fúria da madrasta, agora soberana. Foram encontradas por Ghil, única mulher entre os Eons, que havia se compadecido de sua história e as criou, até mesmo as ensinando como domar os elementos. Quando elas cresceram, derrubaram sobre o reino de seu pai o ódio que ainda nutriam pelo falecido, e perderam o controle sobre o que haviam começado, gerando assim o Pandemônio. Foram presas por Dhor, Wathilar e Gamaeros, mas estes se apaixonaram pelas feições das irmãs bruxas e as desposaram, prometendo aos demais Eons que evitariam que elas repetissem o que haviam feito antes. Antes de partir daquele mundo, os três haviam levantado aquelas estátuas em honra de suas três já falecidas esposas.

Ao se aproximar das estátuas, o jovem notou um homem, empoleirado aos pés de uma delas, já o observando. Se aproximou mais, e uma vez que não sentiu hostilidade vinda daquele estranho, não sacou a espada.

– Quem é você, que se encontra sozinho, no meio desse vazio, guardando estas figuras? – Disse, parando o cavalo, a uma distância segura do desconhecido.

– Talvez eu não esteja sozinho. – Foi sua resposta.

O jovem olhou em volta. Por milhas as colinas se estendiam, e não havia qualquer sinal de acampamento ou agrupamento de homens. Escolheu não expor isso àquela estranha figura que encontrava ali.

– Qual é seu nome, afinal, homem?

– Suponho ser de bom tom que se apresente primeiro aquele que quer conhecer seu interlocutor.

– Sou Aeo, filho de Teo, chamado Espada Contínua. Agora me diga quem é você.

– Acredito que você descobrirá.

O jovem estranhou aquela afirmação. Como poderia ele conhecer aquele homem, tão distante das terras onde crescera? Talvez fosse alguém conhecido por histórias, um indivíduo sobre o qual se cantavam canções, mas havia pouco naquela imagem que sustentasse aquilo. Era um humano, mas quase não o era também.

E então se lembrou de mais uma história que ouvia de sua ama-seca, sobre seres quase humanos que falavam sobre o que acreditavam e respondiam perguntas, esperando pelo próximo inquisidor em pontos onde grande magia havia sido feita no passado.

– Você é um Banchi. – O estranho abriu um sorriso. – E como adivinhei sua natureza, tenho direito a três respostas, ainda que cifradas, se primeiro responder três perguntas com honestidade.

O estranho assentiu, com um enorme sorriso aberto de maneira extremamente bizarra em seu rosto. Então se pôs a falar.

– De onde vêm?

– Venho das Florestas de Gahil, onde conferenciei com Gaor em pessoa.

– Suponho não ter perguntado o que fazia, mas há honestidade no que foi dito. – Estendeu seu dedo para a espada que Aeo portava na cintura. – Como obteve a arma?

– Eu mesmo a forjei, quando completei minha maioridade, na Forja Negra do Andurah.

O estranho assentiu. Não parecia ter dúvidas. Parecia, em verdade, fazer perguntas das quais conhecia a resposta.

– O que é o sol em seu manto?

– É o símbolo do reino perdido Fardor. Meu irmão Reo será seu novo rei um dia.

O banchi pulo de onde estava, sentando-se no chão.

– A terceira resposta também é verdadeira, embora a segunda parte talvez nunca aconteça.

Aeo se sentiu ofendido, mas lembrando-se da natureza daquela criatura, preferiu não comentar.

– Minha vez, se bem me lembro. – Ele disse, sem tirar os olhos daquele desconhecido. – Serei bem sucedido na minha missão atual?

– Me parece que não posso ver o que ainda virá. Apenas o passado se abre a meus olhos.

O jovem então compreendeu que a ama exagerara ao dizer que aqueles seres sabiam tudo. Sabiam apenas o que já ocorrera. Assim sendo…

– Onde se encontra Mareanasar?

O estranho sorriu, e sua voz mudou. Pareciam que mil vozes falavam por sua boca, como vozes tumulares e sem vida, ao mesmo tempo em que tudo que falava vinha acompanhado por um sibilar de vento no interior de uma caverna.

– O Rei Merian a perdeu onde rei nenhum pode caminhar. De um senhor ela é, e ele planeja que assim continue.

Passado o assombro inicial pela forte mudança no timbre do banchi, Aeo se preparou para a última pergunta.

– Como Farn derrotou o Espectro da Montanha?

Novamente, a voz veio tumular, como milhares de corpos perdendo a vida.

– Com um piscar, o fazendo derreter como o degelo na primavera.

Dito isso, o banchi se calou, e não voltou a emitir qualquer outro som. Aeo reconheceu nas estátuas a direção indicada por Gaor, e seguiu seu caminho.

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