Personagens de sonhos não tem nome. Apenas o são. Mas possuem forma, cores , trejeitos e por vezes até perfumes e luminescências.

Algumas vezes são apenas descanso, criados apenas para brincar.

Mas outras não poucas vezes, são criados , ou evocados para avisar.

Era um cenário desolador de uma cidade que claramente a muito vivia no caos. Focos de incêndio aos montes, prédios em estado de pré demolição, fachadas depredadas e pichadas, e muito entulho e restos de metais retorcidos pelas ruas. Não era de se esperar menos. A única figura paternal
e de liderança que aquele povo conhecia acabara de falecer. Enquanto o conselho tentava chegar a um consenso, e eleger um novo substituto a população entrou em pânico. Várias criaturas e entidades que antes não podiam de aproximar dos limites da cidade por conta da presença do grande mestre e de seus poderes, agora circulavam livremente pelas ruas. Sabiam que essa liberdade seria temporária, até que outro mestre fosse designado para ocupar a cadeira deste que acabara de partir. Então estavam aproveitando o máximo que podiam.

– Olááá pequenina! – foi assim que ele se aproximou de uma garota nos seus pouco mais de 13 anos. Ela trazia o medo e o pânico em seu olhar. Estava em choque por tudo aquilo que via ao seu redor. Mas estranhamente aquele cumprimento a trouxe novamente a realidade.

– Não está me ouvindo? – disse novamente a entidade dessa vez com uma expressão menos dócil. A garota esfarrada não conseguia pronunciar uma única palavra até então. Apenas observava o aspecto terrorífico de quem lhe falava. Lembrava um homem comum. Embora sua magreza a  fizesse duvidar no início. Era pálido como alguém de pele albina, porém seus cabelos desgrenhados eram terrivelmente negros e lisos. Trajava uma espécie de macacão justo, listrado em preto e branco. E nas mãos brincava com uma espécie de chicote dourado.

– Si… Sim… Estou  ouvindo – finalmente conseguiu gaguejar algumas palavras.

– O que faz aqui sozinha? Por que você não vem comigo o que acha?

– Mas senhor, não tenho nada a oferecer. Com certeza há coisa melhor para o senhor por aí – apesar do medo, a esperteza que sempre a acompanhara retornou para defendê-la.

Diante da resistência da menina, por um momento apenas , sua expressão de docilidade forçada, que mais parecia a de um psicótico a beira de um surto se desmanchou. A menina então recuou. Porém recuperando a postura ele colocou o chicote nas mãos da sua ouvinte.

– Veja – Disse ele vagarosamente. – Ele pode ser seu se quiser. E porquê não me acompanhar ? Eu já fiz tanto por você! – proferiu essa últimas palavras olhando no fundo dos olhos da menina.

– Acho melhor não – respondeu ela, mesmo sabendo que aquilo poderia significar seu fim.

Inconformado, o rosto que antes tentava manter a paciência assumiu sua verdadeira expressão de frieza. Antes que pudesse ter qualquer reação , o pescoço da menina foi entrelaçado pelas mãos gélidas daquele que antes tentava seduzi-la com suas palavras.

E tudo ficou escuro.

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