Devido a uma série de problemas da ordem pessoal, o maior deles conhecido popularmente como preguiça, esse texto, que deveria ser colocado aqui no blog no sábado foi atrasado até essa linda (e fria) madrugada de segunda-feira. Como recompensa, vou também colocar, na sequência, um conto. Com meu texto de livros da segunda-feira em si, mais meu conto regular de terça, serão quatro vezes seguidas de Rafael Marx pra vocês. Peço desculpas…

A capa do primeiro RPG da história.

Em meados do ano de 2004, eu, que era um sujeito deveras solitário nas tardes das minhas férias de verão, fui apresentado ao sobrinho de uma amiga da minha mãe que passava as férias por lá, sem nenhum amigo. A amizade que eu peguei com o sujeito foi rápida, já que logo na primeira tarde ele me apresentou a algo que, eu diria, mudaria a minha vida: O RPG.

Acho que estou me atropelando um pouco. Antes de ser definitivamente apresentado ao RPG com 13 anos, eu tinha tido um contato anterior com a brincadeira. Um primo havia ganho um kit com um livro e o mapa de uma masmorra, de um sistema e cenário que eu desconheço quais eram. Cheguei a brincar com a coisa toda, mas era muito pequeno (tinha oito anos) para formar qualquer impressão sobre aquilo. Mas aquela noção de um universo imaginário onde eu era um herói já ficou marcada em mim. Mas antes ainda, o que é RPG?

RPG é a sigla para Role-Playing Game, ou Jogo de Interpretação. Mas difere de uma brincadeira de teatro de maneira bem simples: No RPG, há sempre um Mestre (Dungeon Master no inglês) ou Narrador que faz as vezes de deus ao controlar todo o universo e personagens não controlados pelos demais jogadores. Fora o mestre, outras pessoas fazer as vezes de jogadores, sendo que esses criar um personagem, normalmente atribuindo um valor numérico a características como força ou inteligência. Esse número é normalmente somado a um valor aleatório, determinado por dados, para definir se você é, ou não, bem sucedido naquilo que decide realizar com seu personagem. Simples, rápido, prático. E imaginativo.

Meu primeiro contato real com o RPG foi uma coisa bem amadora. Criamos um sistema, extremamente primitivo, e usamos dados do jogo de tabuleiro WAR. Mas naquelas mesmas férias eu descobri uma Revista Brasileira de RPG, chamada Dragão Brasil, e comprei cerca de oito revistas antigas que estavam disponíveis na banca de jornal próxima da minha casa, assim como o livro do sistema criado pelos editores da revista, chamado Defensores de Tóquio. Mais tarde eu descobriria que o Defensores de Tóquio tinha sido criado de maneira a ser mais barato, com a idéia de ser vendido em bancas e alcançar pessoas que normalmente não tinham acesso ao rpg.

A capa do Manual 3D&T: com dados comuns, era tudo que eu precisava.

Ao longo dos anos seguintes, foram várias experiências com o que a Revista Dragão Brasil me oferecia. Logo o sistema Defensores de Tóquio foi atualizado para uma terceira edição, chamado 3D&T, e foi aí que eu desenvolvi meus maiores vôos.

Sendo um morador do interior, de uma família que não dispunha de muitos luxos, numa cidade sem acesso algum a livros caros, a Dragão Brasil e seu universo padrão de fantasia, chamado Tormenta, foram a primeira forma que eu obtive para exercer minha criatividade. Aprendi na raça como ser o mestre do jogo, uma vez que eu era quem convidava meus amigos para jogar comigo. Meu primo e meu irmão eram, essencialmente, quase todo meu grupo de jogo, com alguns amigos participando eventualmente.

Logo eu descobri uma forma de jogar online, numa plataforma que o Yahoo disponibilizava de comunidade online, chamada Yahoo Groups, onde as pessoas jogavam RPG sem a apresentação numérica, numa forma que nós chamávamos de RPG Literal. Meu primeiro contato com isso foi num grupo de Harry Potter chamado Gruta do Fawkes. Me ajudaram muito a aprender a desenvolver tramas e personagens, e me ensinaram o conceito de Over Power: um personagem com tantos poderes que a coisa fica sem graça.

Da Gruta, eu comecei a jogar vários RPGs no Yahoo baseados em animes… Cheguei a jogar 12 ao mesmo tempo. Eu era um estudante do fundamental com tempo, e fora as duas horinhas de estudo diárias, tinha muito tempo livre e conseguia ficar muito tempo no computador.

Logo eu também consegui mais formas de jogar com meus amigos. Primeiro, comprando suplemento após suplemento do que o pessoal da Dragão Brasil publicava. Os editores eram Marcelo Cassaro, Rogério Saladino e J. M. Trevisan. Essa trindade, apelidada Trio Tormenta, dava dicas na revista de como criar seu próprio sistema, como adaptar o jogo, como desenvolver a descrição das cenas. Com 15 anos, eu já era um Mestre experiente o suficiente para não deixar as pessoas morrerem de tédio. Eu já conseguia desenvolver minhas próprias aventuras e campanhas, e comecei a tentar criar cenários.

Cenário é o nome dado a um universo imaginário. Criar um cenário basicamente exige o seguinte: criar para os jogadores masmorras onde eles possam se aventurar, personagens não-jogadores com os quais possam interagir, objetivos que possam cobiçar, e situar isso tudo geograficamente num mapa. É, literalmente, criar um mundo.

Também aos 15 anos tive contato pela primeira vez com um sistema que não fosse o 3D&T e não fosse criado por mim. Era o CODA, sistema criado pela Decypher Inc. e que era a plataforma onde eles desenvolviam o RPG oficial de O Senhor dos Anéis. O livro foi publicado em português e eu consegui comprá-lo, depois de ter lido a resenha positiva feita na Dragão Brasil sobre ele. Ele também usava apenas dados comuns, e as partes mais complexas eu simplesmente adaptava para ficar mais simples. Eu era um grande fã da série criada por Tolkien e simplesmente precisava jogar naquele mundo.

No mesmo ano eu comprei ainda outro livro, Shadowrun, o qual era tão complexo que eu nunca cheguei a jogar, embora eu tenha certeza que tenha sido o livro que mais li na minha vida. Em contrapartida, os grupos do Yahoo começaram a esvaziar, e eu precisei encontrar outra forma de jogar online. Logo comecei a jogar, também sem regras numéricas, em diversos foruns online de anime que eu frequentava.

Aos 16, realizei um sonho. Ganhei de presente de um amigo o Livro do Jogador do famoso Dungeons and Dragons, então em sua terceira edição, que havia acabado de ser lançado no Brasil. Esse amigo tinha sido apresentado ao RPG por mim, mas morava agora na cidade de São Paulo, e jogava com outras pessoas.

O Dungeons and Dragons, ou D&D, é conhecido como o primeiro RPG jamais criado. Não é bem verdade, mas seus autores são responsáveis pelas versões primitivas, chamadas Chainmail e Blackmoor, que mais tarde viriam a evoluir no primeiro D&D, cuja capa é a primeira imagem desse texto. Ao longo do tempo, eles evoluíram a brincadeira para o Advanced Dungeons and Dragons, introduzindo o conceito de três livros: do Jogador, dos Monstros, e do Mestre. A terceira edição também contava com três livros básicos, mas eu nunca os obtive, tendo que dar meu jeitinho. Gary Gygax e Dave Arneson, responsáveis pela brincadeira, são vistos como os pais do jogo de interpretação.

Aos 17 anos, a Dragão Brasil já não era mais a mesma. A saída do Trio Tormenta da publicação certamente pesou nisso. Eu também já não jogava tão frequentemente, uma vez que meu tempo era quase todo gasto pensando no vestibular que viria. Mas o pouco tempo que eu tinha, passava jogando em foruns, agora voltados totalmente para isso.

Aos 18 anos, ingressei no cursinho pré-vestibular. Agora com uma última chance de passar, eu quase não tinha tempo de jogar, mas continuava o fazendo online. Desde então, nunca mais voltei a ter um grupo regular de RPG tradicional, com papel, lápis e dados. Ao invés disso, encontrei programas de chat voltados para o RPG que me permitiram jogar com pessoas de diversos cantos cenários que eu só tinha ouvido falar, como Vampiro: A Máscara, e GURPS.

Passei no vestibular, mas meu sonho passou a ser me tornar um escritor. O RPG tem grande parcela de culpa nisso. Depois de começar a brincar de imaginar personagens que nunca existiram, peguei gosto por contar histórias, e também o jeito. Ganhei concursos literários, fui premiado pela minha escrita. Até a poesia passou a ser do meu gosto. Passei no vestibular com nota máxima em redação sem entregar nenhuma das que a professora do cursinho pedia durante o ano.

O RPG me ajudou a aprender a socializar. Fiz amigos, não só de carne e osso, como também imaginários. Conheci pessoas distantes, até de fora do país, jogando através da internet. Uma delas, o Lucas, é agora um grande amigo e sócio, e divide o blog comigo.

Aprendi a contornar as situações, procurar outras saídas. O RPG me ensinou a ter malícia, me ensinou como negociar, me ajudou em matemática e até mesmo me auxiliou na hora de aprender conceitos sociais. Mas a principal arma que o RPG me deu para a vida foi desenvolver a imaginação. Se não fosse por Gygax, Arneson, Cassaro, Saladino e Trevisan, eu nunca ia ter conseguido sonhar em escrever. Talvez eu fosse mais uma dessas pessoas que só sabe obedecer ordens. O RPG me fez que eu sou hoje.

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