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Os exércitos se postaram não muito distantes um do outro, de maneira que nem mesmo muitos batedores foram necessários para que se encontrassem. Ele se assentou entre seus homens, como um deles, como sempre gostara. Não exibia coroa em sua cabeça, e com isso ganhava suas reverências. Ao fim da tarde, desceu do cavalo, sentou-se numa pedra e pôs-se a ouvir seus tenentes, sempre com Galian sobre os joelhos. A espada era quase tão famosa quanto ele. Matara inúmeros homens ao longo das batalhas que lutara com ela, e a muito já se faziam canções sobre ela. Chamavam-a Galian Terror dos Espectros, pois com ela ele desferira o golpe que findara com os séculos de terror do Espectro Vermelho de Ingard.

Depois dos tenentes, ouviu os pedidos. Dispensou um velho soldado que viera até ele lhe explicar que recebera notícias terríveis sobre a saúde do filho, lá ao longe, em Ganther, desejando sinceramente que o veterano conseguisse fazer todo o caminho de volta a tempo de encontrar o filho vivo.

Quando os homens fizeram fogueiras e começaram a assar o que ainda lhes restava de suprimentos, comeu com eles, e também riu com eles as piadas que contavam sobre Foreo, que ficara preso sob a virilha de um Tramonte morto na batalha anterior, e incentivou o rapaz a rir também, o aconselhando a se alegrar por estar vivo. Depois, cantou para eles canções antigas que ouvira quando estivera a serviço dos Lordes Orientais em sua eterna luta contra os Senhores Sinistros do Vale dos Ossos. Uma delas, parte do Cancioneiro de Marean, começava assim:

“Marean era um pobre rei

Sem espada, sem herança, sem domínio.

Só possuía um arco albano,

E sua capacidade de vaticínio.

E assim em sonho veio a imagem

De seu destino, glória e ruína,

E tudo mais que lhe cabia.

E assim se iniciou sua viagem

Em busca da onírica criação de Andruina,

Que a tempos dava aos homens arrelia.”

Depois de muito cantar e de muito divertir, se deitou entre os seus e aguardou, quase em vigília, pelo dia que viria, pois mesmo depois de tantas lutas ainda sentia a antecipação das próximas.

Antes do raiar do sol, estava de pé, dando ordens, todas das quais obedecidas. Quando poucas horas haviam passado da aurora, os homens já estavam em linha, sobre seus cavalos, e ele a frente deles.

Do outro lado do campo de batalha, o inimigo, cruel e esperado. Não era a ultima batalha. Ao menos, todos os homens preferiam que não fosse a deles, pois só a morte pararia um homem daquele exército. Ainda assim os gritos monstruosos que cruzavam a planície onde o sangue jorraria colocou no rosto dos homens o terror. Alguns lamentavam a má sorte antes mesmo que ela ocorresse. Mas uma trombeta soou, ordenando aos homens que encarassem a imagem de seu soberano, pois ele iria falar de cima de seu cavalo. E assim ele disse:

“Meus homens! O que mais posso lhes pedir? O que mais? Vocês lutaram congelaram seus pés comigo nas águas geladas na batalha das Praias Negras! Vocês suaram sangue comigo nas lutas em Thael Fardor! Choraram comigo a notícia da morte de meu irmão, que lutava nossa guerra no oeste! Rezaram comigo por água ao cruzarmos o Vale dos Mortos, e conquistaram essa água comigo, com ferro e sangue! Vocês andaram comigo mais do que um rei pode pedir. O que mais posso lhes pedir?”

Ele dizia tudo isso enquanto cruzava de um lado ao outro na frente da primeira linha. Todos permaneciam em silêncio, até mesmo os animais, como que querendo ouvir também as palavras daquele grande general.

“Posso lhes pedir fúria! Posso lhes pedir aço! Posso lhes pedir sangue! Não por mim, mas por todos aqueles que já caíram nessa nossa demanda por liberdade!”

Até o inimigo estava calado. Nenhuma das bestas de guerra do adversário ousava interromper aquelas palavras.

“Quantos de vocês não desejam voltar para suas terras e plantar? Mas de que nos adianta plantar o que não poderemos colher? Somente derrubando a mão opressor poderemos ter em nossas próprias mãos o fruto do que fizermos!”

“Por isso eu lhes peço: Não deixem apagar a chama agora! Não quando tantos já se foram, sonhando com um destino melhor para seus filhos! Não quando tanto já foi percorrido! Não quando o punho opressor já teme de raiva e de medo da nossa fúria! Há muito o mal criou raízes profundas demais em nossas terras. E agora, às portas de seus domínios, nós os encurralamos! Se eu tiver que morrer hoje, morrerei em paz, e dirão que a ruína de Reo, filho de Teo, primeiro Rei de Fardor dos tempos novos, foi o início da Era de Prata!”

Uma corneta soou novamente, dessa vez mais alto. O rei apontou seu garanhão para a morte, e a desafiou. Atrás dele, vinham os homens livres de Fardor, e sua demanda por paz.

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