Pouco a pouco, os carros deslizaram pelo cais com o barulho de pequenas pedras sendo esmagadas pelos pneus. Alguns poucos chegaram a pé, um veio em uma motocicleta. Eu fora o primeiro a chegar ali.

Eu era o responsável pela reunião daquela galeria macabra. Não éramos criminosos comuns. Éramos a pior estirpe, uma coleção de degenerados e desajustados, o grande perigo para a sociedade. Éramos os predadores urbanos.

Aos poucos, eles entravam no armazém abandonado, e se reuniam no círculo de cadeiras que eu ali fizera. Não havia iluminação direta, o que de uma maneira estranha deixava a todos mais confortados.

O primeiro a chegar foi aquele que era conhecido pela mídia como Jack Picadinho. Era um rústico, sem qualquer educação, mas era metódico. Eu admirava suas técnicas para sequestrar as vítimas, sempre mulheres policiais ou enfermeiras, e a forma como ele conseguia devolver seus corpos partidos nas imediações das delegacias e hospitais sem ser notado.

O segundo foi o homem conhecido como Assassino do Parque da Água Vermelha. Ele ficava às voltas no parque, com uma faca, em noites aleatórias, e só ia embora quando tinha feito 3 vítimas. Nem mais, nem menos. No resto do tempo, ele era bombeiro.

Praticamente juntos, chegaram a mulher conhecida como Harpia e o jovem conhecido como Atirador Negro. Harpia era uma viúva que perdera seu bebê e agora sequestrava os bebês de outras mulheres e os matava sufocados. Já o atirador acreditava que cada nova vítima de seu rifle sniper seria seu escravo no pós-vida.

Os três últimos a chegar eram os maiores que estariam ali presentes. Entre eles, o primeiro a chegar foi o Vampiro de Hartwick. Ele sequestrava jovens vitimas já a quase uma década, as estuprava, matava de fome, retirava todo o sangue de seus corpos e tirava suas peles. Ele não devolvia os corpos, que eu mesmo em minha pesquisa não sabia que fim levavam, mas deixava uma poesia escrita a mão numa caligrafia rebuscada e vitoriana, sobre vida e morte, nas quais se comparava a um vampiro.

O segundo chegou de moto. Era o mais procurado entre nós, e talvez tivesse a maior contagem. Era o Mandarim, que usava símbolos chineses em suas roupas e capuz ao matar e sempre deixava uma vítima escapar para contar a história. Eu não compreendia suas motivações nem seus desejos. Talvez fosse o mais parecido comigo, matando pelo prazer da predação. Ao me aproximar dele, descobrira algo que a polícia não sabia. Ele, por vezes, provava da carne de algumas das vítimas.

E o último era o único que me assustava. Ele se aproximara de mim, me pedira para fazer a reunião, mas não era conhecido pela mídia ou pelos tiras. Falava com a propriedade de um intelectual, e tinha mãos de uma águia. Ele me mostrara fotos de suas vítimas, e me dera as informações sobre todos os demais, me pedindo que eu os reunisse. Ele era o verdadeiro líder daquela reunião terrível.

Todos estavam sentados, sem conversas. Ninguém estava confortável com ter sido descoberto, mas todos concordavam em se reunir e descobrir quem fizera a proeza de colecionar todas as nossas identidades.

Ele começou a falar.

“Peço desculpas se o fato de eu ter descoberto e reunido todos vocês parece apresentar algum tipo de ameaça. Não era essa a minha intenção.” Suas palavras eram sérias e tinham poder de convencimento, mas ninguém ali se sentiu a vontade apenas com elas. “Somos todos predadores, e predadores são naturalmente solitários. Mas alguns caçadores naturais nos dão um exemplo de como a caça pode ser facilitada pela colaboração.”

“O que você deseja, afinal?” Era o Vampiro questionando.

“Por enquanto, apenas uma reunião amigável entre possuidores do mesmo hobbie.” Disse o misterioso homem. “Mas há em todos nós uma loucura, e é isso que eu quero reunir. Minha loucura é mais ambiciosa que a de vocês aqui presentes.” Ele fez uma pausa dramática, e ninguém ousou interromper dessa vez. “Eu quero o caos. E acredito que ele vêm do medo. Deixem-me ajudá-los nas suas caças, aperfeiçoá-los, e por fim realizar meu plano.”

“Você está me dizendo que é melhor matador do que eu?” Disse o Mandarim, longe de estar ofendido. Eu mal podia ver os rostos de todos na penumbra daquele armazém, mas o rosto dele era o que menos parecia o de um louco. Ainda assim, havia algo no olhar dele.

“Longe de mim querer ensinar a arte da matança a alguém com mais de 100 vitimas, meu colega. Mas posso ensiná-lo a nunca ser pego. Mesmo para alguém que demanda atenção da mídia, como você.” Se isso ofendeu o reclamante, ele não demonstrou. Esboçou um largo sorriso.

“Pois bem, você tem nossa atenção.” Disse a Harpia. Eu a olhei, notando quão bela era aquela mulher. Poderia passar facilmente por uma dona de casa em seus 30 anos, mas suas mãos também se assemelhavam a garras, como as do nosso locutor.

“Chegará um momento em que eu demandarei a ajuda de vocês para uma situação perene. Um plano-mestre para desestabilizar a cidade, estabelecer o caos.”

Todos prestavam o máximo possível de atenção. O Atirador, vestido não de negro, mas de branco, denunciando sua condição de médico, se remexeu na cadeira. O Assassino do Parque, até então encostado numa parede, se aproximou mais do círculo de cadeiras. Todos esperavam um clímax no anúncio.

“Mas eu não posso falar nada mais sobre o assunto. Não se preocupem imediatamente com mais nada. Eu os procurarei nos devidos momentos, e nós vamos caçar juntos. E quando por fim chegar a hora do descontrole, todos nos reuniremos novamente.”

A quebra no clima deixou todos um pouco decepcionados, mas o estranho havia plantado a semente que tanto queria. Todos começaram a partir, deixando a mim e ao homem sem nome para trás. Quando todos por fim saíram, resmungando ou no mais profundo silêncio, ele se virou para mim.

“Ainda precisarei de sua ajuda, Leon. Você é o único dentre esse grupo de deturpados que me parece algo próximo do genial. Você me acompanhará durante toda a nossa missão.”

E partiu, esvoaçando seu sobretudo marrom. Quando eu finalmente me vi sozinho, gargalhei. Não me importava o sangue, não me importava o plano. Eu era um criador de quebra-cabeças, era isso o que me divertia. E eu teria muitos enigmas para criar antes do fim.

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